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Vós
que lá do vosso Império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um Mundo novo a sério.
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Que
importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão
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Uma
mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
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P'ra
mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
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São
parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.
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Julgando
um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!
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Há
luta por mil doutrinas.
Se querem
que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.
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Sei
que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.
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Sem
que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
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Morre
o rico, dobram sinos;
Morre
o pobre, não há dobres...
Que
Deus é esse dos padres,
Que
não faz caso dos pobres?
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O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
quando consigas fazer
mais p'los outros que por tí!
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Veste
bem, já reparaste?
mas ele próprio ignora
que, por dentro, é um contraste
com o que mostra por fora.
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Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.
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Nas quadras que a gente vê,
quase sempre o mais bonito
está guardado pr'a quem lê
o que lá não está escrito.
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Vemos
gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.
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Os
novos que se envaidecem
Pelo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.
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Para
triunfar depressa
cala
contigo o que vejas
finge
que não te interessa
aquilo
que mais desejas.
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Os
que bons conselhos dão
ás
vezes fazem-me rir
por
ver que eles mesmos, são
incapazes
de os seguir.
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BREVES NOTAS SOBRE:
ANTÓNIO ALEIXO
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" Este Livro
que vos deixo " |
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O poeta
António Aleixo, cauteleiro e
pastor de rebanhos, cantor popular de feira em feira, pelas redondezas de
Loulé ( Algarve - Portugal ) é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia.
Nasceu em
Vila Real de Santo António a 18 de Fevereiro de 1899 e faleceu em Loulé a 16 de Novembro de 1949.
Não sendo totalmente analfabeto, sabe ler e leu meia dúzia de bons livros - não é porém capaz de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe
deu qualificação para poder ser considerado um poeta culto. Mas ficou
sendo conhecido por o maior poeta popular ( O poeta do povo )
Todavia, há nos versos que fazem parte do seu livro "Este livro que vos deixo", uma correcção de linguagem e sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixa de impressionar.
António Aleixo, compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes cantando numa feira ou festa de aldeia, outras, a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionado por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente.
Passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria - sua mais habitual ocupação, por isso também chamado "poeta cauteleiro"
ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta e lá vem a quadra ou a sextilha, a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, normalmente, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.
O que caracteriza a
poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens.
Joaquim
Magalhães
In
Este Livro que vos deixo...
António Aleixo
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Quadras
e Versos
A
obra do poeta é constituída por Quadras, Versos, Glosas e Autos:
"Auto da Vida e da Morte", "Auto do Curandeiro"
e " Auto do Ti Jaquim". |
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Os motivos e temas de inspiração são
bastantes variados. Não sendo um revoltado, acaba por desabafar na
sua poesia todo o sofrimento provocado por certas injustiças, como
se pode apreciar nas quadras laterais
Quadras
compiladas " Deste livro que vos deixo, de António Aleixo
webmaster:
Alves Monteny
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Em
não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria
Mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.
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Quem
nada tem, nada come;
E ao pé de quem tem de comer,
Se alguém disser que tem fome,
Comete um crime, sem querer.
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A
quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa com jeito.
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Mentiu
com habilidade,
fez quantas mentiras quis,
Agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz.
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Embora
os meus olhos sejam,
os mais pequenos do Mundo
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.
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É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva.
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva.
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Quando
os Homens se convençam
Que à força nada se faz,
Serão felizes os que pensam
Num mundo de amor e paz.
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Tu,
que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes -- esqueceste
tudo o que prometias...
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O
meu merceeiro é um santo
e há quem diga que ele é mau!
Digo-lhe só: -- dou mais tanto,
já me arranja bacalhau.
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Não
sou esperto nem bruto
Nem
bem nem mal educado;
Sou
simplesmente o produto
Do
meio em que fui criado.
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Quem me vê dirá: não
presta,
nem mesmo quando lhe fale,
porque ninguém traz na testa
o selo de quanto vale.
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Muito
contra o meu desejo,
sem lhe querer dizer porquê,
finjo sempre que não vejo
quem finge que me não vê...
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Diz
que viver é sofrer ...
concordo. Mas não compreendo
que ninguem ouse dizer
que se aprende sofrendo.
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Quantas
sedas aí vão,
quantos brancos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!
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À
guerra não ligues meia,
Porque alguns grandes da terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.
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Da
guerra os grandes culpados
Que
espalham a dor da terra,
São
os menos acusados
Como
culpados da guerra.
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Se os homens chegam a ver
Por que razão se consomem,
O homem deixa de ser
O lobo do outro homem.
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Por que a vida me empurrou
caí na lama, e então...
tomei-lhe a cor, mas não sou
a lama que muitos são.
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Site em
construção
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